quinta-feira, agosto 12

Aconteceu comigo. E se fosse contigo?

- Hey....moça...onde é que você vai?
- Eu?
- Tá saindo e levando o livro também?-  Ele se aproximou e segurou meu braço com ausência delicada de abordagem.
- O senhor pode largar meu braço. Que isso?
- Este livro ai...eu vi você saindo da loja com ele e abrindo a bolsa. - Falava alto e atraia olhares das pessoas.
- O senhor pode largar meu braço que te explico.
- Então devolve o livro.
- Claro que não. É meu. Eu paguei por ele agora. - Respondi desvencilhando-me do segurança.
- Tá bom...sei...Ô "fulano"..chama o gerente lá. - E mais gente ao redor parava sua vida e olhava aquela cena.

O outro segurança em questão de segundos apareceu com o gerente. Um homem franzino, mas com olhar truculento.
- O que foi? - Perguntou o gerente da tão grande loja.
- Esta moça está saindo da loja sem pagar.
- Eu saindo sem pagar? Claro que não eu...
- To de olho daqui ó...tava abrindo a bolsa e colocando o livro dentro. Aqui na minha cara mesmo.
Mais gente chegando.
- A senhora por favor me acompanhe.- ordenou o gerente sem saber o que eu tinha pra dizer.
- Eu não vou acompanhar ninguém. Posso explicar?
- Lá dentro.
Minha paciência cultivada por horas intermináveis de meditação, pediu licença pra sair daquele recinto.
Aproveitei a platéia. Lotada já. Umas vinte pessoas assistiam aquele espetáculo de equívocos.
- Acontece senhores - falei alto mesmo - que eu fui pagar este livro no caixa e a moça estava colocando ele dentro de uma
sacola plástica e eu disse que não precisava de sacola plástica pra não desperdiçar o pouco de integridade que ainda resta na natureza, minha bolsa é grande. Então ela me disse pra levar a notinha.- Claro que sim!
Ali mesmo peguei a notinha que tá aqui, levantei a mão e mostrei pro gerente, e vim caminhando até a saída e guardando o livro dentro da minha bolsa. Foi quando este senhor me interrompeu.

O gerente olhou a notinha e o livro.
- Tá bom. Tudo bem. Esclarecido. Boa tarde.

Ele já ia se virando pra sair, quando um destes estudantes calouros que pagavam trote no sinal de trânsito disse alto:
- Vai embora assim? Não vai pedir desculpas não?
O gerente riu sem graça:
- Por favor me desculpe.
- E o outro ai..não vai pedir desculpas também não?
Escutei algumas vozes de apoio vindas daqueles que estavam assistindo.
-É isso ai mesmo..desculpa ai..pede logo..
O segurança:
- Me desculpa?
Eu respirei fundo e fiz um sinal afirmativo com a cabeça e fui saindo.

Uma senhora surgiu e me convidou:
- Conheço uma advogada que vai botar esta loja no pau...quer o endereço? Isso não se faz.
- Se fosse comigo eu meteria um processo em cima e ia receber cem vezes o valor gasto no que comprei... me fazer  passar esta vergonha? Não mesmo, cara...- disse  o calouro.
- Deixa pra lá - eu respondi - deixa. Obrigada.

A platéia se dissipou e todos voltaram a seguir seus caminhos. Satisfeitos com o desfecho ou não.
Fui caminhando até o prédio onde ficava o consultório do meu médico. A mesma senhora ainda me fazia companhia. Ela falava sobre o processo que ganhou anos atrás, numa tentativa de aguçar o que eu não sentia ou não queria sentir naquela hora.
Horas depois refiz o mesmo caminho de volta pra casa e passei em frente a loja.
O mesmo segurança estava lá, ele não me viu entrar porque se despedia despistadamente de uma mulher grávida que lhe mandava beijinhos. Deduzi que eram casados.
Lá dentro, comprei o mesmo livro. Pedi a moça pra colocar na sacola branca de plástico. Na saída eu entreguei a ele.
- Toma, você vai gostar de ler, aceita este presente.
- Pra mim?
- Sim. É o mesmo livro que comprei naquela hora. Por favor, não jogue a sacola no lixo e nem  o livro.
Ele pegou da minha mão e eu fui embora. Não olhei pra trás.  A vida continuava e eu me absolvia.

*Não vou fazer merchandising da loja e das outras pessoas. Bobagem.
Mas o livro que comprei nas duas vezes que entrei na loja é O LIVRO DO PERDÃO.
Leia também!

Há braços!!
Elisa C.

9 comentários:

Ruth disse...

Elisa se voce tivesse comprado o Kama Sutra faria o mesmo? ashhuashuashuasuhauhsuasua
Falando sério agora,voce estava sob efeito de calmantes? estranho não ter feito seu barraco de sempre diante das injustiças.
Que bom que voce chegou nesta fase
mas não morre agora não tá bom?
kkkkkkk
Ce me conhece né

beijos abraçados demais

Ruth

Giovana Damaceno disse...

Caraca! Acho que eu faria um puta barraco!

Lolla Tardem disse...

Parabens pela sua atitude! De qq maneira foi uma forma de despertar em todos, os que assistiram e em nos que estamos sabendo agora, o sentido de consciencia coletiva. A preocupaçao com o planeta e com a alma dos habitantes dele. Que bom que existem pessoas especiais como voce andando por ai.
Parabens uma vez mais! (que experiencia hein amiga!!! Fala serio!) Um abraço!

Eder disse...

Tapas de luvas assim doem mais na alma do que os famosos barracos.
é por ai Elisa.
beijo enorme no seu coração que eu já sabia que era bom.

Eder

Jorge Luiz disse...

Se eu fosse o segurança estaria com a cara ardendo de vergonha até agora. Quem não deve não tem nada a temer!!!!!

Flavia disse...

Elisaaaaa!!!Que bom!!Que lindo exemplo!1Amei!!Vou passar pra meus amigos!!..E pros inimigos tbm!!rs
Adorei o comentario da Ruth que disse que se fosse o Kama Sutra vc faria tbm!!!Figura!!!
Muitas saudades envie seus novos trabalhos pra mim, afinal sou sua fã!
Beijos

Gil disse...

Eu no seu lugar processaria e daria o dinheiro da idenização para uma instituição de caridade.
Mentira ahahaha eu ia comprar mais livros e sem sacolas plásticas só nao ia comprar na Americanas mais.
na verdade perdoar é uma dádiva.
te adoro mais e mais elisa

Gil

Cláudio disse...

Já passei por uma situação parecida. Xinguei muito o babaca que desconfiou de mim. Depois fiquei com pena dele.

Iza Carmo disse...

Isso é que é reverter uma situação!!! Agradeço a oportunidade de aprender mais uma!!!